sexta-feira, 19 de setembro de 2008

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Cólera de Aquiles I



Sobre sistemas de identidade visual

Após a Segunda Guerra Mundial, o design efetivamente contribuiu com as relações comerciais dentro do modo de produção capitalista. Através de sistemas de identidade visual, as empresas encontraram um modelo que permitia a tão sonhada universalidade em sua maneira de comunicar, necessária para atingir mercados e culturas distintos. Olivetti, IBM e tantas outras aplicaram esses sistemas. E, fosse nos EUA, fosse no Brasil, a garantia de percepção de credibilidade da marca por parte do consumidor era fato.
O princípio que rege esse sistema é simples: a qualidade de permanecer o mesmo – idem, ibidem ad eternum – permite o reconhecimento do signo. Pode ter raízes na semiologia, mas a Natureza é pioneira no assunto: fulano tem covinha no queixo, nariz adunco, cabelos encaracolados etc. A repetição de suas características permite que seja rapidamente identificado por uma série de peculiaridades encerradas dentro de um sistema. Mesmo que o indivíduo conviva no futuro com esparsos fios de cabelos.
Há discussão sobre a rigidez da proposta. E também a óbvia polêmica sobre a universalidade. Um sistema que se repete tanto no Brasil quanto nos EUA incorre no erro de negar as particularidades, isto é, os chamados regionalismos e suas diversidades culturais. Entramos no paradoxo. Mas saímos dele em seguida, porque o que nos interessa é a aplicabilidade do sistema de identidade visual.
Primeiramente determinamos o objeto, no caso a marca. Ou seja, um signo que compartilha de dois sistemas semiológicos, a escrita e o desenho. No primeiro caso, temos o enunciado, por exemplo, IBM ou Coca-Cola. No segundo, a grafia que utiliza recursos tipológicos e iconológicos. Assim temos dois planos: o discurso, para o qual o branding se posiciona como disciplina; o pictórico, para o qual surge o design gráfico. Na verdade, não há um oposição entre as disciplinas, mas complementaridade. Voltando à personificação da marca, imagine a vida de um indivíduo. Como apresentá-lo em tempos diversos, aos 12 e aos 40 anos, sem que ele perca a sua identidade?
O design gráfico permite que a marca encontre um sistema no qual elementos gráficos serão recorrentes, permitindo a percepção das particularidades da marca em situações adversas e mídias diversas. Do folder ao website, do cartão à sinalização, do press kit ao relatório social, o designer gráfico estruturará e perpetuará imageticamente um conceito visual. O sistema, dependendo da proposta, comportará mais ou menos variações tonais – como no jazz. E o resultado será percebido no conjunto da obra, na repetição de elementos, na efetivação do universo imagético, no projeto a longo prazo. E sobretudo na percepção do público consumidor. Grosso modo, a contraposição entre uma comunicação baseada em um sistema de identidade visual e outra gerada no improviso e na falta de planejamento é notável, pois a primeira se institui no espaço, transpirando, através de elementos gráficos, seus valores de marca.
Um projeto desta abrangência é acessível apenas às grandes corporações? Não. A evolução dos processos tecnológicos e a valorização do designer gráfico permitem a acessibilidade a projetos de implementação de sistemas de identidade visual dentro de valores compatíveis à realidade financeira de empresas, sejam elas regionais ou globalizadas.

A melodia da marca

Hoje procuramos mais e mais produtos personalizados, que correspondam a nossa personalidade. É o fim da linha de produção a la Ford. Cansamos do fast-food. De alguma forma, despertamos para nossas idiossincrasias e as valorizamos. E queremos que o mundo as valorize também. Daí a cada dia surgem novas marcas que procuram nos proporcionar essa sensação única. Porque percebemos a riqueza de ter um jeito própio, uma roupa própria, uma trilha sonora que corresponda a nossa vida. Quando assobiamos aquelas poucas notas de uma melodia de um filme como Contatos Imediatos de Terceiro Grau, contatamos também uma experiência única, voltamos no tempo – como Proust com o bolinho Madeleine em que rememora Combray – reencontramos o eu perdido na infância, no bailinho e a primeira namorada, o primeiro tombo da bicicleta. Saímos feito loucos para um lugar qualquer no deserto para ter esse contato com algo novo. Ou antigo. É uma relação sinestésica que temos com os acontecimentos: tato, olfato, paladar, visão e som. Por isso a importância fundamental da trilha sonora: ela complementa as sensações, enriquece a percepção de algo, potencializa a experiência. Quando ouvimos a mesma música tocada em três, quatro, cinco filmes diferentes, pensamos: eles estão se referenciando? Ou simplesmente se copiando sem imaginação alguma? E quando aquela música tocando no site nos dá a sensação de estarmos habitando o mesmo loungezinho qualquer, com a mesma melodiazinha qualquer? Os sites se tornam os mesmos, por mais que os efeitos de transição, as animações, o conteúdo, a informação sejam sui generis. Mas aquela melodia batida e mal aplicada, copiada a exaustão, ou aplicada sem critério, faz daquele site uma experiência óbvia.
Na concepção de um site, a importância do som é fundamental. Ela releva a experiência na navegação, completando-a. Não basta “jogarmos” aquela musiquinha de fundo e acreditar que isso contribuirá para experiência de marca. Além do erro corrente de cair no lugar comum e de proporcionar a sensação da cópia, ocorre uma apropriação indevida, muitas vezes, de uma obra e de sua corrupção, à medida que a apropriação se dá sem adequação entre o que se tem a dizer e o como dizer.
No melhor dos mundos, gostaríamos de sempre desenvolver sites com trilhas sonoras próprias, sonoplastias únicas e proporcionar uma experiência tão completa quanto nossos mais desejos juvenis almejam. Incentivamos nossos clientes a tanto. O preço? Muito menor do que o preço que se paga por desafinar os acordes da marca.

Design e Escrita

A cultura nos legou a condição de meros repositores de supermercados. Como funcionários exemplares, colocamos cada uma das coisas em suas prateleiras, ou seja, em categorias facilmente reconhecíveis. Um discurso, acompanhando sua tendência ideológica – a ausência desta é em si mesma uma tendência –, determina gostos e atitudes e, de forma mais extremista, a negação de determinado fato. A criação de um mundo no qual arte pictórica e linguagem escrita são opostos é uma dessas tendências intelectuais mercadológicas.
A escrita é a fixação do código lingúístico que sistematiza toda nossa comunicação pela fala. Um animal sendo caçado numa inscrição parietal pertence ao plano da representação. No entanto, para as técnicas de caça serem aprimoradas pela comunidade de caçadores, obviamente eles precisam do código lingúístico. Uma dialética da caça através de imagens pictóricas levaria meses até sua conclusão – que também ocorreria com a morte por inanição dos caçadores. Mas a fala, com sua velocidade e precisão, permite um movimento dialético para o aprimoramento técnico da cultura, produzindo nossas técnicas, ferramentas, armas e rotinas de caça. O código lingüístico nos permite sobretudo concluir sobre o melhor suporte para a representação pictórica da caça ou simplesmente que tipo de representação.
A divisão em dois mundos (desenho e escrita) gera resultados por toda a História. Daí resulta que a paragone entre pintura e escrita persiste em nosso tempo1. Até Leon Battista Alberti, em seu De Pictura (1435)2, a pintura acompanhou impassível os parâmetros da poética clássica para sua realização. A inventio – parte da retórica que significa invenção – determinou boa parte da produção de pintores como Caravaggio e Michelangelo, entre tantos. Assim, o cenário nas pinturas foi o componente determinante. Ut pictura poesis: poesia como pintura. Um adendo: poesia, para muitos, traduz-se em algo meloso – geralmente nada melodioso – presente em canções do repertório da cultura de massa. Aqui não se trata dessa corrupção. Poesia é o próprio par composto com retórica, a arte (técnica) da oratória. O que as diferencia é uma questão de procedimentos, desde uso de métrica, no caso da poesia, até a matéria a ser tratada: uma deliberação em assembléia não é o mesmo que uma poesia lírica em um aniversário de um patrício. Mas as técnicas são muito semelhantes, principalmente no que tange ao placere, docere et movere (prazer, ensinar e comover). A persuasão é a arma da retórica. A poesia educa, como em Vergílio.

Retomando a arte pictórica dos séculos XV e XVI, a busca foi uma pintura narrativa – “pôr diante dos olhos”, ou seja, o conceito retórico e poético denominado enárgeia. Porém Leonardo da Vinci, em seu “Tratado de Pintura”, já questionava essa relação pintura/poesia. Postulando um discurso próprio para a pintura, aspectos elaborados de modo a dar um discurso “poético” genuíno para a pintura como percepção da realidade e efeito de real passam a complementar as exigências. A herança disto foi recebida séculos adiante. O resultado dessa postura histórica é notório: as vanguardas modernistas. Entretanto, isentas de mágoa em relação ao discurso lingüístico, basearam-se em experiências estéticas da literatura, ainda, para compor seu modelo, libertando-se por completo da restrição da narrativa. Certamente, a poesia de Mallarmé mantém um fio até o umbigo do dadaísmo – dadá é o som do bebê e tantas outras significações. Por sua vez, a poesia moderna passou a explorar recursos extralingüísticos. Já a pintura transcendeu a tela e ganhou o discurso como fundamentação de seu discurso pictórico. “O quadro escuro”, de Kasimir Malevich, é um desses exemplos. Sem o título, o efeito do humor é esvaziado. A ironia também.

Depois de olharmos um passado tão tedioso e carregado de termos confusos e inúteis para o passeio no shopping, desembarcamos no século XXI. Um dos produtos que as vanguardas modernistas nos ofereceram foi o design gráfico. Diferentemente da pintura, mesmo a vanguardista, este possui vínculo obrigatório e compromisso com a escrita. Qual a função do design gráfico? A pergunta freqüente compromete-se com respostas insatisfatórias sobre seu aspecto e sua função. Retomando, o movimento dialético entre pintura e poesia é um fim em si mesmo: estético. A gênese do design gráfico reside na síntese texto e imagem, em termos simples. Por isso, isoladamente, a imagem (rabisco, desenho ou pintura) assemelha-se à pintura renascentista enquanto exercício e esmero técnico, todavia, muitas vezes, sem enárgeia (o pôr diante dos olhos).

Os aprimoramentos técnicos da pintura de Michelangelo e Leonardo da Vinci, ou, anteriormente ainda, a elaboração do conceito de perspectiva, são sintomas muito semelhantes ao que vemos hoje. O apuramento técnico do design permite possibilidades de expressão plásticas que jamais tivemos diante de nossos olhos. No entanto, o erro em se produzir um vazio semântico é tão grande ou maior que as mesmas possibilidades. O design, utilizando-se dos restos da abstração pictórica, encontra seu afunilamento em um abstracionismo ostracista. Ou seja, imagens sem ironia, humor ou algum sinal de sentido, quase ilustrações pasteurizadas em modelos tirados da prateleira como a última novidade em shampoo para os dentes. Aparentemente novo e original, seu texto é um erro de digitação: tentaram escrever shampoo para lentes. A representação figurativa é terreno da ilustração – o limite entre ilustração e design deve ser tratado em outra ocasião –, todavia sem a transcendência mística católica. Logo tendendo ao simples representar vazio de mundos sem consistência histórica. Sem o texto, uma das premissas do silogismo, o design gráfico é um exercício técnico historicamente amorfo, esteticamente estéril. Para este caso, basta lembrar uma lição parnasiana: com métrica perfeita, respeitando os ictos, rimas perfeitas e sempre tendo à mão uma chave de ouro, não se faz poesia. Enfim já que o designer desenha tipos, porque não aprimorar o destino reservado a eles?



1) Paragone é termo italiano que significa competição. Ver o excelente trabalho de Márcio SELIGMANN-SILVA, Laocoonte ou sobre as fronteiras da pintura e da poesia, Iluminuras, 1998.

2) Op. Cit.